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Terça-feira, Abril 24, 2007

O Cheiro do Ralo(de Heitor Dhalia, Brasil, 2007)

"Foi feito com muito tesão. Tem sangue correndo de verdade nesse filme. E isso não é a toda hora que se vê¿, foi o que declarou o ator Selton Mello na entrevista coletiva de lançamento do filme em Porto Alegre.

Com o Cheiro do Ralo o diretor Heitor Dhalia conseguiu segundo palavras próprias, o que tinha faltado em Nina, seu longa de estréia, e encontrou o tom certo para todas as coisas. O filme percorre uma linha uniforme de marrons, fumaças e odores.

A origem do filme está no livro homônimo escrito por Lourenço Mutarelli, apresentado a Dhalia pelo roteirista Marçal Aquino(também parceiro constante de Beto Brant). Ambos vêm desenvolvendo o projeto que só agora chega às telas, desde 2003. ¿Ninguém comprava a história, o roteiro foi altamente rejeitado¿, conta o diretor.

Orçado em R$2,5 milhões o filme foi realizado com inacreditáveis R$300 mil. ¿Uma coisa fundamental é ter muita preparação. Não é porque não tínhamos grana que íamos descuidar. Muito pelo contrário, a cobrança era forte, porque quem trabalhava de graça estava lá porque queria. Nossas deficiências financeiras acabaram se transformando em vantagens¿, explica Dhalia.

No filme Selton Mello vive Lourenço, aquele que definiu como o personagem de sua vida. Lourenço é frio e amargo mas ainda assim um anti-herói cativante Seu trabalho é comprar artigos de segunda mão, para isso arma um jogo cruel com seus clientes, a fim de conseguir a mercadoria pelo valor mais baixo. Outro conflito que vive é o fim de seu relacionamento com a noiva(os convites já estavam na gráfica) e a súbita paixão que alimenta pela bunda de uma garçonete.

¿É o personagem mais complexo que eu já fiz. Na minha auto-crítica ser um ator de cinema é saber com muito pouco dizer muita coisa, ser muito contido mas nessa contenção ser muito prolixo. Só consegui chegar nisso em O Cheiro do Ralo¿, refere o protagonista que já atuou em 16 produções, entre elas Lavoura Arcaica e Árido Movie.

Tudo o que rodeia o ralo do título é lixo, é sub-cultura, junkie food, é fedido e descartável. Isso é o que se percebe através da direção de arte, dos figurinos e até mesmo da exótica galeria de personagens onde Lourenço Mutarelli, o autor, está incluso. Propositalmente tudo e todos aparentam ser objetos de segunda mão prestes a serem vendidos por um baixo valor.

Com este filme, Dhalia conseguiu equiparar-se a ídolos seus, como Martin Scorsese e os Coen. O Cheiro do Ralo, que já acumula prêmios como de melhor filme na mostra de São Paulo e melhor ator no Festival do Rio tem tudo para trilhar uma bela carreira internacional, assim como o diretor que em breve ruma para Cannes a fim de lançar seu próximo projeto.

O Cheiro do Ralo é um filme impressionante, justamente por ser resultado de um trabalho onde o sangue citado por Mello circula sem estancar. É uma mistura intensa de doce e amargo, inferno e paraíso, lixo e perplexidade. ¿A gente construiu esse filme passo a passo, conversando e com muita consciência da montanha russa que construíamos. Fomos pontualmente aliviando e pesando¿, conclui Selton Mello.

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