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Quinta-feira, Maio 24, 2007

Princesas(de Fernando León Aranoa, Espanha, 2005)

O Goya, maior prêmio da indústria cinematográfica espanhola consagrou Candela Peña como melhor atriz por sua atuação no filme Princesas. E ela de fato mereceu. Em Princesas, longa dirigido por Fernando León de Aranoa, Peña encarna a vida vazia de uma prostituta que transita pelos subúrbios de Madrid.

A atriz que já havia trabalhado com o referencial máximo do cinema espanhol, Pedro Almodóvar em Tudo sobre minha mãe, consegue ir da melancolia ao sarcasmo através de um simples piscar de olhos. A cena inicial em que aparece acordando e com a vagina a mostra é uma prévia do que vem pela frente. Ainda que Princesas não carregue nas cenas de sexo, a protagonista se revela de corpo e alma.

Diretor de êxitos recentes do cinema espanhol como Segunda-feira ao sol, Aranoa criou um filme sensível sobre a vida de prostitutas. Existe um certo apelo estético e investidas no característico humor espanhol que chegam a lembrar Almodóvar, ainda que Aranoa tenha seu estilo próprio.

O foco principal de Princesas, é a amizade entre Cayetana(Candela Peña) e a dominicana Zulema(Micaela Nevárez, premiada com o Goya de Revelação). Com a chegada das extrangeiras o mercado para as prostitutas espanholas que ¿batalham¿ nas praças diminui, as africanas e sul-americanas cobram muito menos, mesmo assim Caye desenvolve um sentimento especial por Zule, que sofre por viver em condições precárias numa terra extrangeira.

Recheado de grandes momentos, o filme talvez peque um pouco pelo excesso, 20 minutos a menos resolveriam, já que os vários falsos desfechos prejudicam um pouco o ritmo da fita. Mesmo assim, cada toque feminino, cada diálogo bizarro sobre homens e sexo está lá, inserido dentro de seu universo.

Outro aspecto positivo do filme á trilha composta pelo músico Manu Chao. Si la vida te da e Me llaman calle são duas das canções que embalam as Princesas do título, a última delas também vencedora do Goya e que faz um interessante trocadilho com o nome da protagonista, Caye.

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Quarta-feira, Maio 16, 2007

Cão sem Dono(de Beto Brant e Renato Ciasca, Brasil, 2007)


Entre um gole de whisky e outro de vodka, Ciro(Júlio Andrade), o cão sem dono do título, se apaixona pela modelo Marcela(Tainá Muller). Uma premissa simples, mas que através do olhar dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, traduz os sentimentos de toda aquela geração coca-cola(mas com muito whisky!), que um dia foi cantada por Renato Russo.

Rodado inteiramente em Porto Alegre pelo paulista Beto Brant em parceria com a local Clube Silêncio, Cão sem Dono mostra uma capital muito mais verossímil e crua do que a já retratada por nativos como Gerbase e Furtado. A Borges de Medeiros, o clubinho underground Beco e Lupícinio Rodrigues dão sotaque a cada quadro do filme que reúne um elenco todo formado por atores daqui.

Adaptado do livro, Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera, Cão sem Dono é estrelado pela própria mulher do autor, Tainá Muller, que em sua corajosa estréia na telona, dá vida à doce e sensual Marcela. O papel rendeu a Tainá o prêmio de melhor atriz no Festival de Pernambuco. O longa levou ainda o Prêmio da Crítica e foi consagrado com o de Melhor Filme.

Com a mesma linguagem simples de filmes anteriores como O Invasor e Crime Delicado, Beto Brant realiza um trabalho profundo e pontuado por metáforas, como o próprio cão do título. Churras, o vira-lata adotado por Ciro, é um espelho de sua vida sem regras Uma sucessão de cenas lindas e grotescas mostram o ápice e o declínio de uma paixão.

Através da câmera na mão do diretor, o protagonista é literalmente, revirado do avesso, mostrado ao público por dentro e por fora. Diálogos consistentes e improvisados conduzem o filme da primeira até a última cena. Um monólogo feito pelo pai de Ciro é um dos pontos altos do filme, outra cena marcante é quando Marcela canta uma música enquanto Ciro arranha no violão.

Marcos Contreras que atualmente também pode ser visto nos palcos com Crucial Dois Um e Janaina Kremer de Vladimir e Estragon, também integram o elenco e protagonizam com competência a simplicidade de um jantar entre amigos.

Para o futuro, Beto Brant pretende levar às telas Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, livro escrito por Marçal Aquino, seu parceiro constante nos roteiros de todos os seus longas.

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Entrevista - Cão sem Dono


Avenida Borges de Medeiros, o Rio Guaíba e o club underground Beco são algumas das locações de Cão sem Dono, filme de Beto Brant e Renato Ciasca rodado inteiramente em Porto Alegre e que estréia antes aqui do que no resto do país. O Poa Cultural acompanhou a entrevista coletiva junto do diretor, elenco, equipe e o autor do livro que inspirou o filme, Daniel Galera.. Confira agora os melhores trechos:

Poa Cultural: Cão sem Dono é um filme muito porto-alegrense, todos os atores são daqui. Como se deram essas escolhas?

Beto Brant: Já fizemos filmes em vários lugares como Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, a idéia é sempre tentar encontrar o ator que tenha maior possibilidade de se expressar através do personagem. Não fazemos testes de elenco e sim entrevistas. Vamos muito de saber se o ator tem um repertório e uma vivência pra colaborar conosco e encontrar o personagem. Da mesma forma que o elenco se expressou no filme, toda a equipe igualmente se expressou. A coisa de fazer Cão sem Dono com pessoas daqui fez com que a equipe trouxesse suas vivências para dentro do filme.

Poa Cultural: Fale um pouco sobre a parceria constante com o roteirista Marçal Aquino.

Beto Brant: Nossa relação é completamente promiscua, porque já sedimentamos uma amizade muito forte, não é que trabalhamos juntos, vivemos juntos. Nos conhecemos em 1991. É uma história de muita amizade e cumplicidade. Nosso próximo filme, ele escreveu e eu acompanhei de perto toda a feitura do livro. É uma abertura que ele me dá como amigo, como criador, e que é muito difícil. O livro se chama Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e será nosso próximo filme e mais nada posso dizer sobre isso.

Poa Cultural: Quando surgiu a idéia para filmar Cão sem Dono?

Beto Brant: Quando vim apresentar O Invasor em Porto Alegre em 2003, apareceu o Daniel Galera com Dentes Guardados. Aí o Marçal Aquino me apresentou e mais tarde eu li o livro Até o dia em que o cão morreu quase que em primeira mão. Em seguida liguei para o Galera dizendo que queria fazer o filme.

Poa Cultural: Quando Crime Delicado foi feito, você já sabia que Cão seria o próximo filme?

Beto Brant: Depois de O Invasor estávamos sem projetos, porque o último já tinha caducado. Acabamos colocando dois projetos em edital, O Crime Delicado e esse pra ver se algum vingava e vingaram os dois. Esses que seriam projetos de passagem se transformaram nas nossas vidas, caímos de cabeça nos filmes e acabamos fazendo nossa vida através deles. Tanto que Crime Delicado é um filme muito importante como realização, busca de linguagem, experiência e envolvimento com artistas.

Poa Cultural: Qual a sensação de ver um livro teu adaptado para as telas e protagonizado por tua mulher na vida real?

Daniel Galera: Foi muito bom ver a Tainá na tela porque ela está muito bem. Tem o fato de que é um livro meu, e ela é minha mulher. É uma situação estranha onde precisa parar um pouco e se distanciar, mas muito mais que ela eu vi a personagem.
O filme é muito mais fiel ao livro do que eu esperava que fosse. Desde o início eu sabia que seria uma releitura do livro e estava preparado pra tudo. Sabia que na hora de filmar tinha muito improviso. O resultado final do filme mantém a essência do livro e as modificações que foram feitas só vieram para acrescentar.

Poa Cultural: Para interpretar Ciro, o protagonista, tu mergulhaste no universo do personagem. Fala um pouco sobre essa experiência.

Júlio Andrade: Não sabia no que ia dar e resolvi apostar nessa. Fui morar no apartamento, levei o Churras pra morar comigo. O Beto também se dedicou a esse pensamento de vir morar aqui e eu resolvi fazer o mesmo processo. Essa entrega não foi só de minha parte, o filme todo foi feito assim.

Poa Cultural: Como foi feita a escolha do cão, o Churras?

Julio Andrade: Eu vi o Churras no meio de 300 cachorros, ele ia virar sabão. Fui eu que o escolhi no meio dos cachorros. Ele era o único que estava virado pra rua, me chamou a atenção e o escolhi, apesar do adestrador ter me avisado que era um cachorro meio baixo astral.

Eduardo Iribarrem - 08/05/07

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